sábado, 22 de agosto de 2009

Exegese: A grande crise do seminarista

Nesta sexta, tivemos nossa primeira aula de Exegese do Novo Testamento. Esta área da teologia, para quem não sabe, é a mais polêmica dentro dos seminários teológicos hoje. O motivo é simples: O método mais usado para se fazer exegese dos textos bíblicos (o método Histórico Crítico) possui pressupostos e métodos que desagradam os mais conservadores.

O Método Histórico Crítico pressupõe que o texto bíblico é um texto literário escrito por homens em reação a um contexto histórico corrente. Nesta intenção, o método procura dissecar o texto em pedaços, analisá-lo parte por parte, tentando encontrar informações valiosas para sua compreensão, como o período que ele foi escrito, sua provável autoria e o motivo pelo qual o texto foi produzido.

O grande problema reside no fato de que este método, até hoje, encontrou apenas respostas que vão contra o que a tradição que nos foi passada informa sobre o próprio texto. De fato, algumas conclusões a que o método chegou vão de encontro com alguns textos do Novo Testamento, especialmente em questão de autoria do texto. Este acaba se tornando o principal motivo de crise do seminarista: Descobrir que algo em que você creu a vida inteira PODE não ser verdade é chocante.

O mais impressionante, porém, é que esta possibilidade bloqueia por completo alguns alunos, que, para se aferrarem à sua fé, rejeitam o método (e a ciência) por completo. Para estas pessoas, a tradição se tornou a base de sua fé, e atacá-la, mesmo com provas, torna-se coisa do maligno. Desta forma, ficamos com dois tipos de alunos em crise: Uns, vendo a base de sua fé (a tradição, e não a Bíblia) sendo destruída aos poucos. Outros, agarrando-se a seus pressupostos e combatendo de frente, de formas até mesmo grosseiras e levianas, todo um corpo de conhecimento que pode ser adquirido.

A verdade é que estas pessoas falham em perceber que a exegese, por si só, não é nada. A ciência exegese, quando se torna um fim em si mesma, é estéril, só serve para produzir informações acadêmicas. Além disso, dentro da exegese, existem diversos métodos além do Histórico Crítico que trabalham o texto bíblico, resultando em conclusões diferentes, que não se contradizem porque cada método analisa o texto com um determinado enfoque (por exemplo, o método Histórico Gramatical analisa a sintaxe do texto bíblico, estudando-o como se apresenta a nós).

Entretanto, é na utilização dos resultados desta exegese que surge o verdadeiro trabalho do pastor. O pastor precisa sempre compreender que sua audiência não vai à igreja para saber se determinado profeta escreveu ou não um texto bíblico, mas sim como aquele texto bíblico pode trazer luz e vida para seus problemas e angústias. Neste sentido, o pastor precisa aprender a estudar o texto bíblico e aplicar sua mensagem de forma que seu impacto seja sentido pela igreja, um impacto de transformação de vidas, e não de destruição da fé.

Por fim, vale notar que a exegese, por mais que seja uma ciência, não consegue chegar aos mesmos resultados. Mesmo aplicando-se métodos como o mHc, que dissecam o texto todo, existem problemas como a tradução a ser utilizada para determinada palavra. Como os textos bíblicos são escritos em idiomas não correntes hoje, cada palavra pode possuir várias traduções. Cabe ao exegeta ver qual utilizar, e é aqui que muitas vezes ocorre o problema, pois traduções divergentes geram resultados muitas vezes opostos.

Em suma, o fato é que a exegese jamais deveria ser motivo de crise para um seminarista. Afinal, por mais que um professor fale que um autor não existiu, ou um texto não está nos melhores originais, esta é a teoria corrente da academia, teoria esta que pode ser derrubada no futuro próximo. E não só isso: A exegese deve ser encarada como uma ferramenta para o pastor edificar sua igreja, através de uma mensagem melhor embasada e estudada, e não como uma máquina de destruição da fé da igreja.

0 comentários:

Postar um comentário

Share

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More