quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Por uma teologia coerente

Terça-feira foi um excelente dia de estudos no seminário. Uma das aulas foi de Tópicos Especiais em História, ministrada pelo Prof. Osvaldo, onde estudaremos a História da Interpretação da Bíblia ao longo dos tempos. Estaremos iniciando nossos estudos com os temas Alegoria grega e Midrash judaico, conhecimentos essenciais para entender-se profundamente a formação do evangelho de Mateus.
A segunda aula, ministrada pelo Prof. Delambre, será de Teologia Sistemática. Durante a aula, uma excelente discussão surgiu: O que seria uma teologia coerente? A argumentação foi sobre até onde o teólogo pode se posicionar diante de uma outra teologia, contestando-a ou comentando-a.
A discussão levantada notou que os teólogos, hoje, pecam pela falta de coerência em suas interpretações. Afinal, em alguns momentos usa-se uma forma de interpretar o texto bíblico e, em outros momentos, usa-se outra forma totalmente diferente, para poder justificar a formação da confissão de fé daquela comunidade. Quando pensamos sobre isso, o fato é que tal tipo de teologia não pode ser considerado coerente, por haver conflitos metodológicos: Interpretar alegoricamente ou literalmente conforme os interesses da liderança ou da comunidade não é algo honesto a se fazer.
Além disso, foi levantada uma outra questão, a motivação por trás da formulação de determinada teologia. Houve uma comparação entre os pastores que pregam uma Teologia da Prosperidade em cima de versículos isolados com os pastores que condenam o ministério feminino em cima apenas dos textos das cartas paulinas ou de argumentos circunstanciais sobre a formação do grupo de discípulos de Jesus Cristo. A questão levantada é que não existiria diferença entre os dois pastores em sua incoerência, apenas uma diferença de grau, pois enquanto uns assumem estarem usando a teologia para seu próprio benefício, outros o fazem porque honestamente creem ser a correta interpretação da bíblia.
Quando paramos para meditar sobre o estado da igreja evangélica hoje e da teologia que é produzida, vemos que, de fato, a afirmação acima faz sentido. Falta uma formação teológica mínima para os nossos pastores, que permita a eles entender realmente o que o texto bíblico queria passar na época em que foram escritos. Na ânsia de adaptar a mensagem e trazê-la para os dias atuais, as lideranças levianamente ignoram algumas passagens e exaltam outras literalmente ou alegoricamente, rechaçando a todos os outros como sendo "hereges" ou estando "fora da visão profética" do líder. Com isso, cria-se uma grande e confusa "salada de teologias" que acaba confundindo a cabeça dos membros mais novos e de pessoas interessadas no evangelho.
Para combater esta situação, podemos pensar em inúmeras soluções. É claro, diferenças de opinião quanto à interpretação bíblica sempre existirão. Entretanto, todas as soluções a serem pensadas devem sair de uma mesma raiz: O princípio da coerência na interpretação. Para alcançar este objetivo, é necessário considerar-se, no momento da análise textual:
1) Compreender seu contexto histórico.
2) Entender as formas verbais e textuais que compoem o texto.
3) Analisar os textos vizinhos da perícope analisada, buscando visualizar o contexto geral da mensagem passada.
4) Considerar a tradução mais usada na análise do texto original (não se fiar apenas às exceções ou traduções obscuras).
5) Levar em consideração toda a mensagem do livro ou dos diversos livros do autor.
Somente com uma coerência metodológica na hora de se entrar no texto bíblico, será possível extrair uma teologia também coerente do texto. Sem uma metodologia coerente, a teologia formada será sempre escrava das intenções do seu proponente, viciando o texto bíblico com a visão que este proponente quer passar. E isto não é teologia séria; é manipulação das massas!

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